Representações recentes do panorama contemporâneo da cinematografia documentária brasileira, os filmes Estamira (Marcos Prado, 2006) e Moacir Arte Bruta (Walter Carvalho, 2006) apresentam condições que os conectam como objetos de estudo desta análise: cada narrativa trata de um corpo social pertencente às relações sociais com indicativos patológicos e multidimensionais de sobrevivência em cotidianos desenhados por exclusões.

Moacir é um homem negro, analfabeto, com deficiência óssea congênita, o que se reflete na fala

Os filmes centrados na vida destes dois corpos sociais trazem configurações da contemporaneidade brasileira em dois aspectos: no aspecto social, considerando as personas sociais, Estamira e Moacir, representificações do real de uma sociedade classificada de "Terceiro Mundo", vítima de uma história de exclusão sob os olhares vigilantes da opressão, da exploração e de um ideal de seletividade humana que começa a definir o pensamento dominante na América e na Europa, a partir dos expansionismos coloniais e industriais, formadores da era moderna; e no aspecto cinematográfico, o que há para análise são dois documentários marcados por dispositivos na linguagem que imprimem as características pós-estruturalistas das produções do gênero: a transdisciplinaridade[4] como método do “olhar” objetivo sobre o “outro”, e a subjetividade como qualidade deste “olhar” objetivo sobre o “outro”, ou seja, a valorização da pluralidade narrativa pela complexidade do real.
É preciso compreender o que esta pesquisa entende por narrativa, diferenciando este tipo de análise de uma análise de gênero.
Durante a construção desta pesquisa, os estudos sobre antropologia visual, cinema etnográfico, cinema sociológico e cinema documentário serviram fundamentalmente no sentido de enriquecer o diálogo sobre a narrativa dos filmes aqui propostos, ao contrário de fechar os raciocínios às discussões relativas a gênero e nomenclatura. Tal proposição parte de uma lógica pós-modernista e pós-estruturalista que rompe com padrões e regras estabelecidas para a obtenção de um real absoluto, tanto no que se refere às artes quanto às ciências, em seus discursos práticos e teóricos.
A narrativa é compreendida neste trabalho como um dispositivo metodológico e criativo de “interpretação e de confrontação”[5] do cineasta sobre o objeto observado, e a análise parte para verificar as dimensões objetivas e subjetivas do processo criativo de representificação[6] do outro, partindo do pressuposto de que tal processo seja estabelecido pela reciprocidade intencional nas relações diretas e indiretas entre observador e observado. A escolha do termo representificação na abordagem da pesquisa, portanto, reforça o entendimento aqui tratado sobre o discurso narrativo, como melhor esclarece o sociólogo de arte e cinema Paulo Menezes:
Durante a construção desta pesquisa, os estudos sobre antropologia visual, cinema etnográfico, cinema sociológico e cinema documentário serviram fundamentalmente no sentido de enriquecer o diálogo sobre a narrativa dos filmes aqui propostos, ao contrário de fechar os raciocínios às discussões relativas a gênero e nomenclatura. Tal proposição parte de uma lógica pós-modernista e pós-estruturalista que rompe com padrões e regras estabelecidas para a obtenção de um real absoluto, tanto no que se refere às artes quanto às ciências, em seus discursos práticos e teóricos.
A narrativa é compreendida neste trabalho como um dispositivo metodológico e criativo de “interpretação e de confrontação”[5] do cineasta sobre o objeto observado, e a análise parte para verificar as dimensões objetivas e subjetivas do processo criativo de representificação[6] do outro, partindo do pressuposto de que tal processo seja estabelecido pela reciprocidade intencional nas relações diretas e indiretas entre observador e observado. A escolha do termo representificação na abordagem da pesquisa, portanto, reforça o entendimento aqui tratado sobre o discurso narrativo, como melhor esclarece o sociólogo de arte e cinema Paulo Menezes:
O conceito de representificação realça o caráter construtivo do filme, pois nos coloca em presença de relações mais do que na presença de fatos e coisas. Relações constituídas pela história do filme, entre o que ele mostra e o que ele esconde. Relações constituídas com a história do filme, articulação de espaços e tempos, articulação de imagens, sons, diálogos e ruídos. Pensar o cinema como representificação significa poder pensar a sessão de cinema como acontecimento (...)[7]
A antropóloga Clarice Peixoto, em um de seus discursos promovidos à luz dos debates do Fórum de Cinema e Antropologia, na 1ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, em 1993, no Rio de Janeiro[8], fala da deficiência dos debates sobre a especificidade da antropologia visual, por girarem “sempre em torno de definições imprecisas, tipologias ilusórias e pouco operacionais, como se fosse absolutamente necessário definir um caminho único para a exploração audiovisual”[9]. Francisco Elinaldo Teixeira, por exemplo, prefere utilizar “o composto forma-documentário como uma esquiva da noção de gênero”[10]. Em outros casos de estudo, fala-se sobre a existência de uma forma anti-documentária[11] do filme sociológico, caracterizada por compostos inventivos de interação com o objeto observado, onde “o filme se torna ele mesmo um acontecimento, ao mesmo tempo em que o assunto se torna mais ou menos indeterminado, misterioso, um processo aberto, um diálogo, um discurso indireto, livre, polifônico, que faz com que o outro se crie à medida que o filme se faz”.[12]
De fato, o que é consensual nas relações entre documentário cinematográfico e ciências humanas é a necessidade de uma metodologia de observação do outro, e “a linguagem, seja no cinema, seja na antropologia, é uma questão de método: como mostrar o outro sem o reduzir a um objeto, ou melhor, como mostrar o outro preservando aquilo que ele tem de mais interessante: a sua diferença, a sua radical ‘alteridade’?”[13]
Os recortes analíticos nesta pesquisa partem do diálogo entre teorias sobre a sistematização disciplinar da condição humana e as estruturas sociais; sobre o processo criativo como experiência vital da condição multidimensional do corpo e do pensamento humano, e sobre a anatomia do corpo social excluído na formação sócio-cultural brasileira e ocidental. A conjunção dessas teorias parte da idéia de que a todas elas corresponde a questão do olhar metodológico na ordenação de suas respectivas experiências. E é nesta questão que a mesma conjunção de teorias se relaciona a esta análise de narrativa documentária; a narrativa como fim da experiência do outro através do olhar criativo e objetivo do cineasta, que observa, interpreta, confronta, intui e ordena.
Numa época em que a ciência caminha desenfreada para o aprimoramento das tecnologias do conhecimento e das relações sociais, paradoxalmente a um patamar crescente dos processos de reducionismo cultural, e de seletividade humana e da natureza como um todo, o corpo social nunca foi um território tão pertencente a um sistema político, econômico e cultural que o transforma em produto fabricado com meios e fins exclusivamente determinados para o fortalecimento desse sistema, em detrimento da liberdade existencial e social de cada indivíduo. Adventos como a patente genética, por exemplo, desafiador das leis da evolução natural e da biodiversidade, é resultante de um processo histórico do desenvolvimento humano dominado por crenças raciais, sexistas e econômicas de um ideal excludente de sociedade.
Analisar neste projeto as narrativas destes filmes refletindo sobre processos sociais e dramatúrgicos de interpretação e confrontação; sobre formas excludentes do pensamento humano e da sociedade, e sobre o olhar criativo multidimensional na busca por compreensões acerca da condição humana é contribuir para um diálogo propositivo de transformação de modelos pré-fabricados de visão, tanto nas ciências e na sociedade quanto no cinema e nas artes, de um modo geral. O jurista Alcides Pedro Sabbi diz que “descrever a realidade por fora, por cima, à distância, através de tipos abstratos, clichês, estereótipos, é próprio da pedagogia do conservador”[14]. Afirma ainda que “não transformadas por dentro, as formas tendem a esvaziar-se, resultando meros invólucros, preservados por si mesmos, e disfuncionais em relação à realidade.”[15]
É possível que os filmes Estamira e Moacir Arte Bruta estejam inseridos nessa pedagogia conservadora, tratando de tipos estereótipos em condições de exclusão social sem qualquer propósito junto à realidade? Ou que multidimensionam a visão do telespectador para além desses clichês, encontrando na dialética contemporânea da narrativa cinematográfica documentária novos tempos, espaços e corpos representificadores do real, novas maneiras de lidar com o mundo que existe além do visível, além da condição cristalizada do pensamento social? São respostas às quais este trabalho chega, não fazendo delas afirmações fechadas, finitas. Mas abrindo-as para possibilidades maiores de compreensão e de construção de uma dramaturgia do cinema documentário antropológico fiel à condição humana.
Esta pesquisa foi orientada por Gabriela Lirio Gurgel.
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[1] PRADO, Marcos. Histórias do Jardim Gramacho: além do fato/lixão. 31/07/2005, disponível em: http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cidade/2005/07/30/jorcid20050730004.html .
[2] Id., Ibid.
[3] É como Moacir se refere às figuras diabólicas que desenha.
[4] O termo transdisciplinaridade abrange um significado mais amplo acerca da apreensão múltipla, não-linear e integrada do real e do conhecimento, não sendo algo intrínseco às novas tendências do cinema documentário; apenas, aqui, utilizo o termo para integrar o cinema documentário neste contexto.
[5] PEIXOTO, Clarice in: MONTE-MÓR, Patrícia e PARENTE, José Inácio (org.). Cinema e Antropologia: Horizontes e Caminhos da Antropologia Visual. Rio de Janeiro, Interior Produções, 1993, p. 12.
[6] MENEZES, Paulo. Representificação: As relações (im)possíveis entre cinema documental e conhecimento. RBCS vol. 18, nº 51, fevereiro/ 2003.
[7] Id., Ibid., p. 94.
[8] O evento aconteceu no Centro Cultural Banco do Brasil, e os registros dos debates e seminários resultou no livro organizado por MONTE-MÓR e PARENTE (Id.,Ibid).
[9] PEIXOTO, Clarice in: MONTE-MÓR, Patrícia e PARENTE, José Inácio (org.). Cinema e Antropologia: Horizontes e Caminhos da Antropologia Visual. Rio de Janeiro, Interior Produções, 1993, p.12.
[10] TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Eu é outro: documentário e narrativa indireta livre in: Documentário no Brasil: tradição e transformação / Francisco Elinaldo Teixeira (org.). – São Paulo: Summus, 2004, p.47.
[11] Id.,Ibid.
[12] PARENTE, André in: MONTE-MÓR, Patrícia e PARENTE, José Inácio (org.). Cinema e Antropologia: Horizontes e Caminhos da Antropologia Visual. Rio de Janeiro, Interior Produções, 1993, p. 52-53.
[13] Id.,Ibid., p. 51.
[14] SABBI, Alcides Pedro. Agética da repressão reagética da liberdade. São Paulo: Ícone, 1986, p.28.
[15] Id.,Ibid.
[8] O evento aconteceu no Centro Cultural Banco do Brasil, e os registros dos debates e seminários resultou no livro organizado por MONTE-MÓR e PARENTE (Id.,Ibid).
[9] PEIXOTO, Clarice in: MONTE-MÓR, Patrícia e PARENTE, José Inácio (org.). Cinema e Antropologia: Horizontes e Caminhos da Antropologia Visual. Rio de Janeiro, Interior Produções, 1993, p.12.
[10] TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Eu é outro: documentário e narrativa indireta livre in: Documentário no Brasil: tradição e transformação / Francisco Elinaldo Teixeira (org.). – São Paulo: Summus, 2004, p.47.
[11] Id.,Ibid.
[12] PARENTE, André in: MONTE-MÓR, Patrícia e PARENTE, José Inácio (org.). Cinema e Antropologia: Horizontes e Caminhos da Antropologia Visual. Rio de Janeiro, Interior Produções, 1993, p. 52-53.
[13] Id.,Ibid., p. 51.
[14] SABBI, Alcides Pedro. Agética da repressão reagética da liberdade. São Paulo: Ícone, 1986, p.28.
[15] Id.,Ibid.
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